top of page
Buscar

A gente escuta mal, MESMO!

Foto do escritor: Circular Psicanálise
Circular Psicanálise
30 de set.
3 min de leitura

Por: Geovanna Duarte

A psicanalista e escritora Ana Suy, referência contemporânea no campo da psicanálise

brasileira, propõe uma reflexão sobre a escuta em um de seus textos:


“A gente escuta mal, pensa que compreende o que o outro não disse, entende o que a pessoa disse antes que ela termine de dizer, interrompe o que o outro está dizendo para falar o que pensa do que se supõe que ele dirá.

(Entender é grave)”


E, de fato, escutamos muito mal. Não é raro que, em nossos laços sociais, mesmo quando

estabelecemos um “diálogo”, estejamos pouco disponíveis para escutar o que o outro tem a nos dizer. Frequentemente, nos antecipamos à sua fala, atravessando-a com nossas próprias interpretações, experiências e expectativas, como se escutar exigisse, necessariamente, que nos inseríssemos naquilo que está sendo dito.


“Nossa, me senti tão mal por terminar meu namoro.”

“Ah, mas, quando eu terminei, foi assim também. Depois passou. Você vai ver, logo passa!”

“Poxa, tenho me sentido cansada com a rotina que tenho tido.”

“Espera ter filhos para você ver!”


Os “diálogos”, que poderiam ser espaços de troca genuína, nos quais cada um pudesse se

expressar e dizer de si, acabam se transformando, muitas vezes, em uma espécie de disputa: quem sofreu mais, quem está mais cansado, quem tem a experiência mais difícil ou a história mais extraordinária para contar.


Isso, quando, antes mesmo que a fala seja concluída por seu emissor, já foi completamente interpretada pelo suposto “ouvinte”.


Bruce Fink, em seu livro Fundamentos da Técnica Psicanalítica, propõe que isso ocorre na medida em que, ao nos identificarmos com algo do outro, podemos nos vincular a ele a partir daquilo que reconhecemos em nós mesmos. É como se parte da nossa escuta estivesse, na verdade, voltada para nós próprios. Nesse movimento, embora pareça haver uma aproximação, corremos o risco de perder de vista a singularidade daquele que fala, reduzindo sua experiência àquilo que nos é familiar e, de certa forma, anulando aquilo que lhe é próprio (FINK, 2017).


Trago isso justamente para marcar o quão trabalhoso é o ofício de um psicanalista. Afinal, trazemos, enquanto seres humanos, essa marca das identificações e dos vínculos que nos constituem. A tarefa de escutar o outro sem nos deixarmos capturar inteiramente por nossas próprias referências é, portanto, um exercício que exige constante atenção. E isso não é qualquer coisa.


Entendo que isso conversa, e muito, com o que Lacan construiu em seu texto "A direção do tratamento e os princípios de seu poder" , quando diz que o analista paga com sua pessoa para ocupar sua função. Pagar com sua pessoa implica colocar-se em jogo na experiência analítica, sem fazer de suas próprias vivências e referências o centro da escuta. Portanto, não importa o quanto aquela história se pareça com a nossa. Ali, não se trata de nos identificarmos. É um ofício que demanda de nós um esforço a ponto de nos levar a lutar contra algo que é intrínseco à experiência humana.


Talvez por isso me incomode tanto quando o trabalho do psicólogo e/ou do psicanalista é

resumido, de maneira tão jocosa, à expressão “é só ouvir”. Não, não é só.


Paga-se muito para ouvir. Paga-se com a própria pessoa, com as próprias vivências. Implica sair de cena.

Não ocupar o lugar principal.

Permitir que o outro fale por si.

É suspender-se.

Excluir-se.


E isso é só uma pequena parte desse trabalho.



 
 
 

Comentários


© 2024 - Circular Psicanálise

  • Instagram
bottom of page