A histeria e o enigma do saber

Por: Lucas Nogueira
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A histeria foi, historicamente, uma doença associada às mulheres como sendo supostamente causada pelo movimento do útero, o que geraria sintomas emocionais e/ou físicos. Além disso, a histeria também era empregada como uma insígnia de “loucura”, haja vista que a estética sintomática dos quadros dessa enfermidade na antiguidade eram as paralisias, contraturas físicas, cegueiras, entre muitos outros sintomas conversivos.
No entanto, com o passar dos estudos ao longo dos anos, observou-se que a histeria não era uma doença exclusiva das mulheres, mas uma enfermidade psíquica que pode acometer qualquer sujeito, independentemente de seu sexo. Nos primórdios da psicanálise, por exemplo, a histeria foi um dos grandes objetos de estudo de Freud, que o levou a escutar as mulheres de sua época, que sofriam e apresentavam esses sintomas no corpo sem nenhuma causa ou razões aparentes.
Sendo um grande enigma a ser decifrado, a histeria confrontava vários campos do saber, em especial, o saber médico. Foi em Viena que, Freud junto com Breuer, dedicou-se a estudar as histéricas, dando voz àquelas mulheres que sofriam com sintomas no corpo que não tinham nenhuma origem biológica ou representação consciente. E graças a elas, conseguiu chegar até a hipótese do inconsciente, uma vez que o pai da psicanálise constatou haver outro estado mental cindido da consciência, que interferia na vida de um sujeito mesmo a sua revelia, podendo resultar em sintomas conversivos, atos falhos, lapsos, nos sonhos.
Nos estudos sobre a histeria, Freud diz:
“Tais observações nos parecem demonstrar a analogia, quanto à patogênese, entre a histeria comum e a neurose traumática, e justificar uma extensão do conceito de “histeria traumática”. Na neurose traumática não é o ferimento físico insignificante a causa efetiva da doença, mas o afeto de pavor, o trauma psíquico. De maneira análoga, para muitos, senão para a maioria dos sintomas histéricos, nossas investigações revelaram causas imediatas que devemos designar como traumas psíquicos. Toda vivência que suscita os penosos afetos de pavor, angústia, vergonha, dor psíquica, pode atuar como trauma psíquico; se isso de fato acontece depende, compreensivelmente da sensibilidade da pessoa afetada [...]” (Freud, 2016, p.22).
Com isso, o inconsciente passa a ser a sede desses sintomas histéricos, onde a psicanálise formula que a histeria nada mais é que uma enfermidade psíquica, ou seja, uma neurose. Para Freud (2014) os sintomas neuróticos possuem um sentido e guardam relação com as vivencias do enfermo, assim, o que se manifesta como sofrimento pode ser desvendado ou decifrado.

Portanto, para além de empregarmos a histeria no rol de uma patologia, talvez seja mais importante então considerá-la como algo que causa resistência ao saber, visto que foi apenas a partir da escuta das palavras do doente, que se pode chegar até a origem do próprio sintoma. Ou seja, é somente o próprio enfermo que é capaz, a partir de um trabalho de escuta de seu inconsciente, descobrir o motivo causa-dor de seu mal-estar.
É pela via da investigação e da sondagem que a psicanálise opera, pois, se compreende que uma “doença” só pode ser superada se sobre ela pudermos narrar uma história. Assim, se a histeria tem valor de enigma, o que uma análise objetiva é justamente apostar na dimensão da palavra, para que o simbólico possa tocar o corpo e desvendar a trama inconsciente em jogo de qualquer sintoma.
Por isso, em psicanálise as perguntas nos são mais valiosas do que quaisquer respostas. A dignidade da histeria está justamente em se produzir saber onde a priori só havia mistério. Na atualidade, assim, devemos elevar a histeria a um discurso que convoque um trabalho de deciframento, e não mais de reduzi-la a uma doença da sexualidade feminina.
Referencias
FREUD, Sigmund; BREUER, Josef. Sobre o Mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos: comunicação preliminar. In: FREUD, Sigmund; BREUER, Josef. Estudos sobre a Histeria (1893 – 1895). 2. ed. São Paulo: Cia das Letras, 2016. Cap. 1. p. 18-38. (Obras Completas Volume 2). Tradução: Laura Barreto e Paulo César de Souza.
FREUD, Sigmund. O sentido dos sintomas. In: FREUD, Sigmund. Conferências introdutórias à psicanálise (1916 - 1917). São Paulo: Cia das Letras, 2014. Cap. 17. pág. 343-364. (Obras Completas Volume 13). Tradução: Sergio Tellaroli.




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