Às mulheres, nunca basta.
- Circular Psicanálise

- há 1 dia
- 2 min de leitura
Por: Geovanna Duarte
Ainda estamos no mês de março. O mesmo que contém uma data que, hoje, traz consigo muitos impasses: o dia da mulher.
Se viver em sociedade implica renunciar, como aponta Sigmund Freud, em O mal-estar na civilização, é preciso perguntar: quem é mais convocado a ceder?
Às mulheres, pede-se mais. Mais contenção. Mais adaptação. Mais silêncio. Mais. Mais. Mais. E, ainda assim, não basta.
Essa renúncia nunca é sem resto, pois o desejo não desaparece, a agressividade não se dissolve e o cansaço não deixa de existir. Ou seja, algo retorna e, muitas vezes, retorna contra a própria mulher.
Muitas vezes na forma de culpa, de exigência e de uma insuficiência que não se resolve. Assim, há um circuito que se instala: quanto mais se exige renúncia, mais se produz culpa.
Ainda sobre o texto de Freud, ele elucida que o que torna possível a existência da civilização é a renúncia aos nossos desejos, sobretudo à nossa agressividade. Sem isso, a convivência seria inviável, já que, entregues à satisfação plena das pulsões, tenderíamos à destruição. No entanto, essa renúncia não é sem custo. Aquilo a que se renuncia não desaparece; a agressividade, impedida de se dirigir ao outro, volta-se muitas vezes contra o próprio sujeito. É nesse movimento que se produz o sentimento de culpa — uma espécie de agressão dirigida ao eu (FREUD, 1997).
Pensemos, então, que tudo aquilo que é exigido à mulher, social e culturalmente, implica uma tentativa de “resposta” — ainda que seja quase impossível escapar disso —, exigindo uma série de renúncias, inclusive pulsionais.
Não se trata apenas do que vem de fora. Há algo que se instala e passa a operar de dentro, como uma exigência que não cessa. A mulher que se vigia, que se cobra, que faz — e, ainda assim, não basta.
Porque aquilo que foi silenciado não desaparece. Retorna. E, ao retornar, volta-se contra ela. E não basta.

Referências:
Freud, S. (1996). O mal-Estar na civilização (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. 21). Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1929).




Me emocionei demais. É exatamente isso. Ocupando sempre a cadeira da culpa. Obrigada pelo texto tão sucinto e tocante.