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Por que falamos tantas vezes sobre a mesma coisa em análise?

Foto do escritor: Circular Psicanálise
Circular Psicanálise
2 de jul.
4 min de leitura

Por: Geovanna Duarte

Para aqueles que já passaram por um processo de análise ou por uma psicoterapia, independentemente da abordagem, não é incomum perceber-se voltando, sessão após sessão, aos mesmos assuntos.


Na clínica, isso muitas vezes é, inclusive, fonte de angústia, já que frequentemente se tem a impressão de que falar novamente sobre a mesma coisa significa, na mesma medida, continuar sofrendo e lidando com ela do mesmo modo.


Mas, quando isso ocorre em um espaço de análise, diante de um analista advertido da importância da repetição e responsável pela direção do tratamento, esse retorno aos mesmos assuntos não é, necessariamente, um sinal de que nada está acontecendo. Ao contrário, a repetição pode ser parte fundamental do próprio trabalho analítico.


Para pensar essa questão, proponho retomar um texto de Sigmund Freud, originalmente intitulado Recordar, repetir e elaborar, que, em traduções mais recentes, recebeu o título Lembrar, repetir e perlaborar, escrito em 1914. A princípio, talvez esse texto não pareça dialogar diretamente com a pergunta que abre esta reflexão. No entanto, espero que, ao final, fique mais claro por que recorrer a ele pode nos ajudar a compreender o lugar da repetição em uma análise.


Nesse texto, Freud inicia discutindo as mudanças na técnica analítica após o abandono da hipnose. Até então, o tratamento tinha como objetivo favorecer a ab-reação, isto é, a descarga emocional do afeto ligado às experiências traumáticas, por meio da recordação de cenas e acontecimentos recalcados. Partia-se da ideia de que, ao trazer esse material à consciência e possibilitar sua elaboração, seria possível produzir o desaparecimento dos sintomas (FREUD, 2006).


Nesse sentido, os sintomas eram compreendidos como relacionados ao esquecimento ou, mais precisamente, ao recalcamento das cenas e experiências que lhes davam origem. Posteriormente, a ab-reação passa a ocupar um lugar secundário. Sem o recurso da hipnose e diante da associação livre do paciente — regra fundamental da psicanálise, segundo a qual o sujeito é convidado a dizer tudo o que lhe vier à mente, suspendendo, tanto quanto possível, a censura sobre seus pensamentos —, o trabalho analítico deixa de buscar diretamente as lembranças perdidas e passa a se orientar pelo que insiste em escapar à recordação (FREUD, 2006).


Paralelamente, Freud formula uma importante regra técnica dirigida ao analista: a atenção flutuante, regra técnica do analista. Em vez de concentrar sua escuta em acontecimentos específicos ou procurar confirmar hipóteses previamente formuladas, o analista procura sustentar uma atenção igualmente aberta a tudo o que emerge no discurso do paciente. É essa posição que possibilita que as resistências se tornem perceptíveis e possam ser interpretadas. Na medida em que essas resistências são trabalhadas, aquilo que permanecia recalcado pode, pouco a pouco, encontrar caminhos para ser lembrado e elaborado (FREUD, 2006).

Ademais, Freud discute o esquecimento e sua função nos processos psíquicos. Em sua perspectiva, o esquecimento não deve ser entendido como uma simples falha da memória, mas como um efeito do recalcamento. Contudo, os caminhos pelos quais algo se torna inacessível à consciência não são sempre os mesmos. Há conteúdos que, em algum momento, puderam ser conscientes e, posteriormente, foram recalcados e há outros que jamais chegaram a se apresentar claramente à consciência (FREUD, 2006).

Entretanto, mais do que distinguir a origem de cada forma de esquecimento, interessa a Freud mostrar que, por meio da técnica analítica, é possível estabelecer uma via de acesso àquilo que permanece recalcado.


É então que surge outro ponto central para a reflexão proposta neste texto, que conversa com a pergunta inicial: “[...] o paciente não recorda coisa alguma do que esqueceu e reprimiu, mas expressa-o pela atuação ou atua-o (acts it out). Ele o reproduz não como lembrança, mas como ação; repete-o, sem naturalmente, saber que o está repetindo.” (FREUD, 2006, p. 165).


A partir da transferência, o paciente repete, no contexto analítico, algo que, fora dali, também acontece o tempo todo. Porém, é somente nesse espaço, diante do analista, que essa repetição ganha um lugar e pode ser escutada, permitindo que aquilo que ela encobre, pouco a pouco, encontre uma via de elaboração. “[...] Por exemplo, o paciente não diz que recorda que costumava ser desafiador e crítico em relação à autoridade dos pais; em vez disso, comporta-se dessa maneira para com o médico” (FREUD, 2006, p. 165).


A repetição, então, é algo fundamental para a técnica analítica, na medida em que é a partir de uma repetição atualizada na transferência que o analista pode operar. Há, portanto, uma estreita relação entre repetição, transferência e resistência. Quanto maior a resistência, mais intensamente o paciente tende a repetir, em vez de recordar, por meio da transferência.


O trabalho analítico acontece, então, segundo Freud, à medida que o analista pode assinalar ao paciente os caminhos de sua resistência, para que este, em seu próprio tempo — e sem pressa —, possa trabalhar e elaborar aquilo que ela encobre. A repetição, portanto, tem um lugar fundamental nesse processo: é preciso que ela possa acontecer para que, pouco a pouco, o sujeito recorde e elabore.


Portanto, voltemos à pergunta inicial: por que repetimos os mesmos assuntos na análise?

Ora, mais do que buscar suas razões, importa escutar o que essa repetição tem a nos dizer. O que está difícil de elaborar? Ou, ainda, o que preciso dizer sobre esse assunto para que ele encontre uma via possível de elaboração?


A Psicanálise também construiu sua técnica dando voz àquilo que, até então, era “pura repetição”. Não seria, então, essa mesma lógica a ser seguida diante das repetições de temas na análise? Em vez de tomá-las como algo ruim, não seria possível fazer delas uma questão?


Referências

FREUD, Sigmund. Recordar, repetir e elaborar (Novas recomendações sobre a técnica da psicanálise II). In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 2006. v. XII



 
 
 

1 comentário


Hellen
03 de jul.

É vdd. Os tenho percebido isso durante os anos.

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