Amor, resistências e travessias
- Circular Psicanálise

- 21 de fev.
- 2 min de leitura
Por: Lucas Nogueira
________________________________________________________
Na vida, é preciso correr algum risco para que algo novo seja inaugurado. Andar na contramão do medo, exige coragem para pegá-lo pela mão, e deixar que o corpo não ceda à paralisia. O amor solicita não só entrega ao próprio sentimento, mas implica uma postura ativa para que algo siga existindo no real: o amor é decisão.
Inclusive, dizemos que a psicanálise é a cura pelo amor. Mas de que amor se trata?
Freud nos ensina em seu texto “Introdução ao narcisismo (1914)” que o amor é capaz de nos adoecer, mas ele pode ao mesmo tempo, ser potente para nos livrar de uma vida um tanto miserável. Por isso, geralmente, uma análise caminha nas trilhas das nossas histórias amorosas, sejam elas familiares, conjugais ou profissionais, é sempre de amor que estamos falando no divã.
O amor mencionado por Freud sublinha bem o amor que citei inicialmente, que não é um amor puramente desimplicado, mas aquele que exige uma posição do sujeito, que visa alargar as possibilidades de reinvenção diante de suas resistências. Amar algo, seja alguém ou alguma coisa, parece simples, mas envolve um trabalho que não é somente o de se deixar ser afetado, pois, ainda que isso seja importante, é necessário conduzir o próprio verbo.
O trabalho que o amor solicita especificamente é uma travessia que envolve confiança ao risco, pois nada nos isenta do que podemos encontrar pelos nossos caminhos. Além disso, me parece que é essa direção que uma psicanálise objetiva, de podermos construir com as palavras ditas mais uma ponte para a realização de uma travessia do que nos agarrar a uma garantia impossível.
Para que uma análise possa ser “bem-sucedida” não basta somente que esta produza um efeito catártico em quem sofre, mas se bem conduzida, deve levar o sujeito a atravessar suas resistências. No coração da psicanálise está não o amor romântico, e sim o amor que engendra formas de atravessar qualquer barreira que nos impeça de sustentar aquilo amamos.
A forma como alguém sofre, assim, pode ensinar sobre a forma como se resiste ao desejo, às coisas que se ama, eis a neurose por excelência. O amor em si não é suficiente para ele seguir vivo, é preciso decidir pelo desejo, não só com o sentir, mas com os passos que podem percorrer quilômetros de distância, pois amar é avançar na própria vulnerabilidade do fazer.

Referencias
FREUD, Sigmund. Introdução ao narcisismo (1914). In: FREUD, Sigmund. Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos (1914-1916): obras completas, volume 12. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. Cap. 1. p. 13-50. Tradução: Paulo César de Souza.




Comentários