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O encontro com o real: Da fantasia da gravidez à experiência concreta da maternidade.

  • Foto do escritor: Circular Psicanálise
    Circular Psicanálise
  • 21 de fev. de 2025
  • 3 min de leitura

Por: Geovanna Duarte


Há muito o que se dizer sobre a maternidade. Basta que saibam que estamos grávidas para que inúmeras falas, conselhos, advertências, especulações e afins surjam! Logo, também aparecem diversas fantasias sobre como será esse pequeno ser que está para chegar ao mundo. Portanto, a maternidade, desde a gestação – e até antes dela, se considerarmos os âmbitos social, familiar e cultural –, é envolta em inúmeras fantasias: sobre como será essa experiência, sobre o bebê e sobre a vida após o nascimento.


Atrevo-me a dizer que não existe a maternidade, mas sim maternidades. Não sabemos como cada pessoa vivenciará esse processo. Assim como Simone de Beauvoir nos apontou que “não se nasce mulher, torna-se”, creio que com a maternidade não é diferente. Não se nasce mãe, nem para sê-lo, mas torna-se. E esse é um processo atravessado por muitas fantasias, sejam elas construídas socialmente, como dito anteriormente, bem como pela singularidade de cada mulher e sua história.


Por mais que idealizemos, nos preparemos, estudemos e façamos o que for possível, desde o início da maternidade, na gestação, nos deparamos com o incontrolável da vida.


E é aí que nossas fantasias encontram o Real. Imaginamos que a gestação será de uma determinada forma, mas ela se apresenta de outra. Desejamos um parto de uma certa maneira, mas ele pode ocorrer de forma diferente. E até imaginamos que o bebê será de uma forma específica, mas ele pode se apresentar de outra.



Isso não necessariamente torna a experiência “ruim”. Para muitas pessoas, a experiência se dá de forma muito melhor do que a forma idealizada, por exemplo. Mas o que quero dizer é que nossas fantasias podem se deparar com o Real, conforme formulado por Lacan, que fala de um impossível! Um impossível de se dizer, de controlar, de dar conta. E aos poucos vamos dando – ou não – os contornos necessários para simbolizá-lo. Mas o que isso quer dizer?


“O Real é aquilo que falta na apreensão do pensamento” (COELHO, p. 2, 2014). O Real é um dos três registros psíquicos, composto por aquilo que foge à nossa compreensão e representação. Podemos pensar que é o registro em que nos faltam as palavras para expressar a experiência. Por exemplo, quando estamos diante de um luto, da perda de um ente querido, em que nos faltam palavras e recursos para falar sobre aquilo. É como se, nesse momento, o Real se colocasse diante de nós, exigindo um grande esforço para que, aos poucos, possamos dar conta desse algo que se impôs a nós.


Se entendermos que, diante de uma fantasia frustrada, nos deparamos com algo que se impõe diante daquilo que não controlamos, pode ser que, para algumas pessoas, seja muito difícil contornar isso. A gestação e a maternidade podem ser profundamente atravessadas por esse processo. São muitos lutos necessários! Mas podemos contar com uma boa dose de palavras que deem contorno à nossa experiência e tragam um significado para aquilo que chega. Ainda que o encontro com o Real possa ser traumático, podemos contar com outro registro: o Simbólico. Na medida em que damos contorno ao Real através deste, a experiência pode se transformar em outra coisa já que neste, por meio da linguagem, se pode construir alguns sentidos!


De longe, a fantasia é algo ruim! Ela é, inclusive, necessária para darmos conta da vida. No entanto, não estamos imunes a vê-las quebradas no encontro com o Real. Que seja possível seguir com, e apesar disso, vivenciando maternidades possíveis para nós, com sentidos que apontem para menos sofrimento.




Referências

COELHO, Sonia. O REAL NA PRATICA DE PSICANÁLISE. 2014 Dísponível em < http://www.interseccaopsicanalitica.com.br/wp-content/uploads/2014/01/sonia_coelho_real_pratic_psican_upld_4.pdf > Acesso em: 20 fev 2025.


 
 
 

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